Joaquim Cavalcanti de Oliveira Lima Neto Eu fui advogado de um Inventário que corria em São Luiz do Paraitinga, cidade histórica paulista com seu lindo casaril colonial, onde nasceu o médico Sanitarista Oswaldo Cruz. Eu receberia como pagamento um pequeno pedaço de uma fazenda. Peguei um ônibus em São Paulo, para ver o Inventário, e desci em Taubaté. Levaria meia hora para sair o ônibus para São Luiz do Paraitinga. Vi uma Mesquita e nunca tinha entrado em uma delas. Pedi autorização para o Xeique, tirei os sapatos e fiz a ablução. Ele me ensinou a orar para Alá e me contou a vida do grande Profeta Maomé. Saindo, cheguei em São Luiz do Paraitinga, onde recebi uma ótima notícia: o Inventário tinha terminado e eu recebi um bom dinheiro em terras. Comecei a achar que só Alá era grande e Maomé era o seu Profeta, ir à Mesquita dava sorte e sempre que necessitava de dinheiro entrava em uma delas. O interessante era que os fiéis davam grandes quantias em dinheiro como óbolos colocados em um tapete persa e entregues ao Xeique. Certa vez o Xeique falando em árabe, traduzido simultaneamente, disse que era muito fácil entrar no céu, que Alá era clemente e generoso, bastava um pequeno gesto, como ajudar alguém necessitado a atravessar a rua, cuidar de um animal, enfim, fazer um gesto de bondade, que o céu estaria garantido. Eu sonhei uma vez e disse para minha mãe que iria para o céu, que nunca tinha feito mal para ninguém, e tinha procurado ser um bom filho, pai e avô. Trabalhava para os pobres e tudo fazia para levar uma vida reta. Minha mãe sorriu e concordou comigo. Eu tinha o céu garantido. Daí eu concordar com o Xeique que é muito fácil entrar no reino dos céus. Joaquim Cavalcanti de Oliveira Lima Neto é advogado, escritor e diretor do Museu do Brás. |