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EDIÇÃO 354 - 1ª quinzena de dezembro/2018
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Brás – do Cortiço ao Elevador PDF
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05-Dez-2018
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Alzira Jorri de Tomei

Imigrantes foram aqueles encantadores cidadãos que, chegados da Europa e ocupando o Brás e suas imediações, tiveram que se adaptar, criar, recriar e decidir, transformando as épocas históricas. Do Cortiço às atuais formas de habitação é a trajetória que trago aqui. Conforme o educador Paulo Freire, o homem integrado é um homem SUJEITO e, adaptando-se, torna-se passivo. Para quem se lembra dos hábitos e costumes desse povo que habitou esse bairro tão nobre, fica fácil registrar o conhecimento de uma dinâmica, uma época na gestação de temas próprios, tendo que se forçar em funções intelectuais, deixando de lado cada vez mais as puramente instintivas e emocionais.

Como parte da história de meus ancestrais, cujos pés trouxeram da Itália e Espanha, o que pude ver nessa evolução histórica é um homem simples esmagado, diminuído e acomodado, convertido em espectador, dirigido pelo poder dos mitos que forças sociais poderosas criaram para ele. Mitos que, voltando-se contra ele, o destruíram e aniquilaram. É o homem tragicamente assustado, temendo a convivência autêntica e até duvidando de sua possibilidade, ao lado do medo da solidão, que se alongou como "medo da liberdade".

Vivia o Brasil, na chegada dos imigrantes ao Brás, a passagem de uma para outra época. Um tempo de trânsito. Sendo essa fase caracterizada por um elo entre uma época que se esvaziava e uma nova que ia se consubstanciando, tendo algo permeando o alongamento e o adestramento. Neste embate entre os velhos e os novos temas ou a sua nova visão, a vitória destes ou desta não se fizeram facilmente e sem exigências de sacrifícios. O dinamismo do período de trânsito se fazia com idas e vindas, avanços e recuos que confundiam ainda mais o homem chegado do velho continente: Espanha, Itália ou Portugal ou de outra região, em busca de novos horizontes, virando as páginas das Guerras.  E a cada recuo se lhe faltava capacidade de perceber o mistério de seu tempo, o que podia corresponder a uma trágica desesperança; um medo generalizado. Entre parentes deixados lá crianças trazidas para cá, nessa dor a turbulência de navios precários enfrentavam oceanos e seus temores.

 

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O ponto de partida desse trânsito foi uma sociedade fechada em seus usos e costumes, reflexa na sua economia e na sua cultura.  Com precária vida urbana e alarmantes índices de analfabetismo, atrasada pelo sofrimento da travessia nesses navios com pestes em busca de esperança, assim formou-se a infraestrutura do que se vê hoje, ao passar pelas ruas do Brás. Era um nacionalismo miscigenando-se sob as influências dos povos que chegavam. Nesses diálogos genéticos, novas vidas se convenciam, acertavam-se, respeitando-se no outro o direito de também julgarem-se certos. Tentavam convencer-se, converter-se, muitas vezes esmagando seu oponente. Era a luta dos povos. E por uma questão mesma de amor, reagiam aos que lhe pretendiam impor silêncio.

Imigrantes, perfil de um povo preponderantemente ingênuo: simplicidade na interpretação dos problemas, pela fragilidade na argumentação, temperado por um forte teor de emocionalidade, pela prática não propriamente dialética, mas da polêmica e explicações mágicas. Assim chegaram eles, comandados pela utopia de terem que ser “homens massas”. Línguas misturadas, países europeus cujos romances não aconteciam lá, mas entrelaçaram-se aqui, formando gerações luso-hispânicas-itálicas.

Inspirado na graça dos sonhos “dessa gente” chegada ao Continente Americano, em “O Cortiço”, Aluisio Azevedo assim nos descreveu, e faço-me personagem em nome do meu povo: crítica, interrogadora, inquieta, discursiva, tendo que passar por fases rígidas e militarmente autoritárias, como infelizmente estava sendo vivenciado por uma parcela significativa da sociedade brasileira, no período apresentado.

Meu povo passava, necessariamente, pelo forte trabalho educativo crítico de escolas como Caetano de Campos, Padre Anchieta, Romão Puiggari, Camargo Aranha, Sarmiento, entre outros que fortaleciam não a ação de coisificar-se, mas de humanizar-se, pela adaptação da nova cultura; impossível encerrar este contexto sem lembrar que esse processo foi por um trabalho numa larga escala escravista.  Branco na sua totalidade, mas escravista, buscando educar-se como sujeito histórico, predisposto a constantes revisões. Assim enfatizou Paulo Freire em uma de suas obras psicopedagógicas: a educação por si deve ser corajosa, verbosa, palavresca. Filhos de imigrantes competiam entre si, distribuídos pelas melhores escolas estaduais do bairro, cujas vagas eram conseguidas por concurso público e às privadas, eram deixados quem trazia deficiência cognitiva. Um sino batido à mão, pelas serventes, reunião à frente das bandeiras da pátria e do Estado, alunos que, com a mão no peito, cantavam o Hino Nacional, Hino à Bandeira, Canção do Expedicionário Brasileiro... as guerras eram fatos frescos ainda.

No Brás de hoje, os descendentes da imigração já se identificaram com a realidade do país democrata, em caráter sistemático.  Foi num clima de transição; assim as portas se abriram para intervenções pedagógicas nas escolas, no seu poder de fazer, de trabalhar e de discutir, fundidas na crença do homem como formador de seu destino pessoal e profissional. Erguendo a cabeça, assim agiu o imigrante, crendo em sua capacidade de discutir seus problemas, os que trouxe do velho continente e os que encontrou aqui, em observância ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB e o da Universidade de Brasília, ambos frustrados pelo Golpe Militar.

 

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Estavam, assim - asseguravam outros críticos da educação,  tentando uma estratégia que lhes parecia a de que precisavam, identificada com as condições da realidade: realmente instrumental, porque integrada ao tempo e ao espaço, levava o homem a refletir sobre sua ontológica vocação de ser sujeito, quando tanto o leigo/analfabeto como o letrado, tinham o ímpeto de criação e recriação de sua própria história. Gravou-se uma falácia de algum alfabetizando, idoso camponês imigrante que disse: “Faço sapatos, e descubro agora que tenho o mesmo valor do doutor que faz livros, pois trabalho e trabalhando transformo o mundo”.

Assim foram desaparecendo os cortiços e, na volúpia do desenvolvimento bairrista, foram chegando os prédios de 2 andares, em seguida chegavam os elevadores para os de 3 andares e hoje, dos vagões veem-se as magnitudes dos edifícios, que apagaram por completo as histórias que cravaram no peito os amores pelos cortiços. Passado o tempo, ganharam o formato do mesmo coração que constitui a vida em favela.

A práxis pedagógica de Paulo Freire mostrou, cabível aos povos que agraciaram o Brás com sua presença, algumas palavras geradoras:  cortiço-habitação, alimentação, vestuário, saúde e educação.  No Brás nada disso faltou. Discutir sobre o cortiço (conventillos del Chile), situação existencial apresentada para a chegada dos imigrantes, é parte integrante da História do Estado de São Paulo. Enquanto lá viviam, não se viam. Fiz parte integrante desse processo.

Alzira Jorri de Tomei é Psicopedagoga pela Faculdade de Guarulhos.

 
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