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EDIÇÃO 364 - 1ª quinzena de junho/2019
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No túnel entre os imigrantes e a Era do Facebook PDF
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09-Set-2014
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Alzira Jorri de Tomei

Caro leitor. Você pode ser jovem. É até bom que seja e com isso não elimino os outros. Vamos entrar juntos num túnel do tempo. Quando os imigrantes chegaram ao Brasil, tantos deles instalando-se no Brás, saindo da Terra Nostra em busca de sobrevivência num país estranho, chegaram com ideais; a meu ver com muita coragem.  Roupas precárias, pés no chão, fome, medo. Brasil: Admirável mundo novo, em linhas de Huxley.

Permaneciam muito tempo dentro de navios, trazendo nas bagagens roupas, pertences pessoais, crianças fora e dentro da barriga, tradições, usos, costumes, sonhos, educação europeia. Vindo do velho continente, os povos tinham hábitos rotulados como antigos, elencando, para quem pode observá-los: privacidade, discrição, ética, honra dentre outras características que inexoravelmente formariam um cidadão pressupostamente adaptável. Sou obrigada a puxar aqui o breque de mão diante de vocábulos que caracterizam diferenças entre povos.  Neta de espanhóis e italianos, opto por focar a Privacidade, fui moldada numa forma, não sei se certa ou errada, que apontava a vida particular dos indivíduos, sem a possibilidade de invasão. A vida alheia devia ser respeitadas, até que, digamos, por precaução. E os avós, nessa época eram ouvidos, seja por respeito à idade cronológica, seja por hierarquia, seja por qualquer outro fator. As famílias tinham normas, regras básicas de conduta que deviam ser cumpridas. Durante as refeições, as famílias se reuniam e sentavam-se à mesa para dividir não só o pão, mas o cotidiano.   Não se dava aos jovens ou crianças, o direito de questionar valores, de polemizar tradições e, indo até mais longe, mesmo sendo europeus, italianos e espanhóis não procuravam o mesmo espaço.  Os cortiços no Brás, hoje vistos de forma pejorativa pela sociedade moderna, recebiam, progressivamente e de forma seletiva os imigrantes. Seleção natural que separava Itália da Espanha, por passado político deixados lá, registrados em papel e na memória, ditos principalmente por contadores de história.  Os portugueses também procuravam se agrupar, mas as competições, de um modo geral , eram mais fortemente trabalhadas nesses dois países. Assim, minha geração, digamos que dos anos 50 para frente, foram vivenciando e obedecendo regras impostas enquanto o tempo foi delineando o desenvolvimento sociocultural das famílias. Novas gerações foram chegando e as linguagens e linhagens foram aceitando novas formas; maneiras diferentes de se ver o mundo foram sendo cobradas e por que não dizer impostas pelos sucessores dos imigrantes de base. Pergunto ao leitor deste artigo, que me dedica seu tempo processando essas informações, como podemos, descendentes e herdeiros das tradições chamadas “obedientes”, viver em paz e sem conflitos diante da tecnologia e informatização que, rasgando o túnel do tempo em busca da liberdade sem fronteiras, sem limites, sem parâmetros e sem destino, aceitar a nova era que invade a privacidade dos mais velhos, que afronta a cidadania e o bem estar público, que desfavorece os dogmas e parte as tradições em milhões de pedaços, permitindo que um programa de computador, por exemplo o FACEBOOK (que não foi criado com tal intuito, abra as portas e as janelas das residências com publicações e informações privadas postadas com fotos e comentários desnecessários. Os não adeptos às redes são marginalizados e vistos, à distância, como “cidadão problema”. Assim: quem não tem sua vida pública declarada em redes, fica à parte. Felizmente a tecnologia favorece o desenvolvimento das comunicações, o contato entre as pessoas é imediato, acontece sob o comando de alguns clicks.  Contudo, essa comodidade nos afasta. Visitas familiares, outrora feitas aos domingos, sem metrô foram extintas; tudo é feito por redes. Contatos físicos então, iniciam a partir do “mouse”. Valoriza-se a carne e aparência física, incentivada e estimulada pela mídia que passa a determinar padrões de medidas, dando-se o direito de conceituar O QUE É BELO. A alma, quando não abordada em templos religiosos, é mencionada rapidamente em aulas de Filosofia. E dá-se por feliz o docente que, se capacitado, é compreendido, pois a preocupação da galera são os aplicativos do “celu”. Quem não estiver integrado hoje ao FACE está “por fora”, não existe, não tem número, não é identificado, está em déficit social. Desta forma, abro passagem para Mário Quintana (1906-1994) que confirmou, com simplicidade e delicadeza em poema, a quebra de paradigmas da nova geração em busca de verdades fora de seu ninho.

O velho poeta (do livro Preparativos de Viagem)

"Um dia o meu cavalo voltará sozinho
E assumindo
Sem saber
A minha própria imagem e semelhança
Ele virá ler
Como sempre
Neste mesmo café
O nosso jornal de cada dia
- inteiramente alheio ao murmurar das gentes..."

 

Alzira Jorri de Tomei, brasense, 57 anos, é Docente na Universidade Nove de Julho, formada em Letras, Direito e Gestão Administrativa e especialista em Psicopedagogia.

 

 

 

 
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